domingo, 29 de junho de 2008

Outro .


Eu não fui ao enterro do meu pai.
Quando recebi a notícia de sua doença ainda sentia o peso dos quase 30 anos de animosidade e aversão que houve entre nós durante toda a vida.
Nós passamos a infância ouvindo histórias e fábulas sobre mágicos que fazem coisas fantásticas e inacreditáveis usando palavras como "Abracadabra" ou "Hocus Pocus", mas, na verdade, a única palavra mágica é "Câncer".
Foi essa palavra que me fez esquecer todos os maltratos, a mim e à meus irmãos e mãe, me fez ignorar todos os anos e anos e décadas de desprezo mútuo. Foi essa palavra que me fez escavar a memória em busca dos pouquíssimos momentos bons que vivi com meu pai, que me fez lembrar de suas piadinhas vendo comerciais de cartão de crédito na TV, de jogar River Raid com ele, de levar um tapa na boca aos 3 anos de idade por chamá-lo de algo que eu provavelmente nem sabia o que era, de, escondido com um amigo, vê-lo dançando bêbado sozinho na boate no debut da minha irmã. Me fez lembrar do seu tombo incrível jogando futebol de sapato social e calça branca na quadra do prédio que eu morava, de suas mentiras impressionantes e todas as vezes que ele havia capturado uma onça com apenas uma forquilha quando era mais novo. Me fez lembrar dele de short de índio, camisa social pra dentro, meia fina e tênis Rainha me chamando pra ir ao mecânico num sábado à tarde. Dele dançando bêbado e pelado Age of Aquarius na sala do apartamento ou de sua versão peculiar de Help! dos Beatles.
Foi ao ouvir "Câncer" que eu quis me desculpar com ele por tudo que houve entre nós. Foi aí que coloquei sobre minhas costas o peso de todos os problemas que tivemos. Foi só então que eu percebi que o que me falaram a vida toda era verdade, que pai é pai, apesar de tudo, e que é um só.
Uma vez, durante uma discussão, eu disse pra ele: "Você vai morrer sozinho, sem ninguém, fodido!" Ele respondeu com um balançar de ombros, como quem diz: "E?" E eu disse: "Mas eu vou ao seu enterro, eu quero carregar seu caixão".
Ele: "Não precisa, eu não quero que você carregue". Eu disse: "Faço questão de carregar seu caixão com um sorriso daqui àqui, te colocar no buraco e ir embora rindo". Mas eu nem fui ao seu enterro, mais uma vez a vontade dele prevaleceu. Passei a vida o considerando um estranho, os últimos quatro anos sem querer falar com ele ou mesmo vê-lo, então porque ia querer vê-lo num caixão e ter como essa a última lembrança de meu pai?
A verdadeira última lembrança de meu pai é ele me dizendo: "Vou entrar porque só de vir aqui abrir o portão parece que eu tô bêbado", uma sensação que ele conhecia bem. Aí eu o abracei despedindo, disse: "Te amo, pai", e, embora isso fosse verdade, foi a coisa mais estranha que eu já disse na vida. Ele entrou e, enquanto o resto da minha família se despedia da namorada dele, eu o vi pela janela pegando, na sala da casa, seu maço de cigarro, sua garrafinha de água e ir cambaleando pra dentro da casa tateando a parede enquanto o Câncer destruia seus pulmões, fígado e cérebro, de bermudinha e camisa velha esgarçada na gola... Uma imagem que contrasta com a lembrança que eu quero guardar dele... de sapato social, calça branca, camisa de botão, alto e sempre uma ameaça.
Que sejam essas minhas lembranças. Lembranças de um homem que sempre considerei um exemplo de como não ser. Lembranças minhas, de coisas que vivi sozinho, coisas que vi porque observei, não porque ele era o astro do dia deitado num caixão, com todos os olhos, lacrimosos ou não, vendo a mesma coisa, seus 66 anos de histórias, verdadeiras e falsas, se encerrando ali, nos seus últimos tristes e solitários minutos na superfície da terra.
Que as lembranças desse dia fiquem com os outros, com meus primos e tios que foram, com meus avós, que sofreram a primeira perda de um filho, mas que não sejam as minhas, eu sempre fui egoísta, o pai é meu e eu me lembrarei dele da forma que eu quiser e eu pra sempre vou lembrar dele vivo, sadio e forte.
Se eu pudesse voltar àquele último minuto que passei com meu pai, além de dizer que o amava, eu pediria também desculpas. Desculpas por nunca ter sido um filho melhor, um filho de verdade. Eu espero que ele tenha refletido sobre toda a vida dele em seus últimos meses, semanas, dias, noite, dia e minutos de vida e que ele tenha me desculpado por tudo que fiz ou deixei de fazer... eu sei que eu o desculpei. Só me arrependo de não ter dito.

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