Hoje eu acordei me sentindo poeta, aí eu olhei pela janela, vi SP e tudo mudou. Não é o clima fechado e o tempo frio. Não é só a vista de prédios, carros, asfalto e gente feia feito formiga na calçada... é alguma coisa que parece emanar dos bueiros, das bocas de lobo, do corpo dos mendigos, da pompa dos coxas, de suas gravatinhas, dos motoristas inábeis e irritados, de seus engarrafamentos, da feiura das moças e do infantilismo dos rapazes, dos livros que ninguém vai ler nos sebos, das putas da Rua Augusta, da burocracia dos inúteis, dos miseráveis e dos milionários, das Brasílias e dos Porsches, dos que nasceram aqui, dos carecas e dos nordestinos, dos que vendem a alma ao cifrão, dos que não tem alma pra vender, dos que não tem tempo pra viver, dos que se imbuem de grande importância por não ter nenhuma, dos corinthianos, dos sãopaulinos e dos palmeirenses enquanto desfilam pelas calçadas o mau gosto estampado no peito, dos narigudos, das gordas e dos judeus, sem que nenhum deles perceba.
Essa alguma coisa às vezes impregna os que vieram pra cá, os fazem dizer coisas sem sentido, inebria com uma sensação de grandeza aqueles que não sabem nada de nada e leva, não raro, se não à loucura, à estupidez.
Porém, estranhamente, existe gente boa aqui. Gente que apenas deu azar de vir morar aqui, gente que deu o azar geográfico de nascer em São Paulo, que nasceu e foi criado em condomínios com câmeras teleguiadas por laser e microchips implantados no couro cabeludo, gente que tomou seu primeiro porre aos 19 anos, que fez sua primeira "balada" sem os pais quando entrou na faculdade, gente que não bateu pelada na rua, gente que não correu de bicicleta em volta do quarteirão, gente que foi paquerar aos 18 e que foi ver uma vaca pela primeira vez na viagem de lua de mel aos 38 anos de idade, não que o avistamento de bovinos seja algo indispensável para o desenvolvimento de uma personalidade menos idiota.
Na faculdade conheci alguns exemplos de bom paulistanos, mas eram em sua maioria ainda muito imaturos, ultraprotegidos pelas famílias abastadas, pequenos gênios prisioneiros de suas garrafas, que falavam de tudo, mas nada conheciam. Eram rapazes e garotas que conheciam o mundo, mas não conheciam o próprio bairro, não conheciam nada da própria vida.
Eu vim do interior, vim de outro estado, de uma cidade tão podre quanto qualquer outra, onde as pessoas falam da vida dos outros, onde as pessoas são tão falsas quanto aqui. Uma cidade pequena que só diminui, mas onde se pode comer um pão de queijo inigualável sob os olhares reprovadores da multidão atrasada. Porém foi lá que eu cresci, batendo peladas todos os dias apesar de ser ridículo em qualquer esporte, onde corria de bicicleta ao redor do quarteirão, embora seja uma negação sobre duas rodas. Foi lá que matei horas, dias, semanas, meses e anos jogando videogame com os moleques, embora nenhum deles seja páreo pra mim, fora um, que sempre me esculachava. Foi lá que nasci Democrata, cresci Flamengo, tomei meu primeiro porre antes dos 14 e aos 15 ja frequentava o bar mais barra pesada da cidade e era amigo de todos os cabeludos e "macumbeiros" da região. Foi por aquelas esquinas que tive minhas paixõezinhas tolas de adolescente, imensa parte frustrada, e foi lá que fiz os amigos que até hoje são Os Amigos e os inimigos que são Os Inimigos.
"Por que não volta pra lá e cala a boca, então?" Porque lá também não tem nada pra mim e o sentido da vida é pra frente, nunca pra trás, mesmo que o "pra frente" signifique mais frustração que evolução. Há cerca de 8 anos que habito São Paulo e não chamo de casa pois, aqui, nunca me senti em casa, salvo as vezes que deito no colo da namorada e despejo tantas reclamações que é milagre ela simplesmente não sair correndo sem nem me ligar mais e nem me mandar eMail no aniversário.
Eu li em algum lugar recentemente: "Durmo e acordo na cosmopolita São Paulo, e acredito por instantes que SP, NY, Barcelona e Paris são a mesma coisa."
Espero que isso seja mentira, um engano, um gracejo... seria muito triste pensar que o mundo todo é igual a isso... e se NY, Barcelona e Paris forem a mesma coisa que São Paulo, talvez exista nos EUA, na Espanha ou na França alguma cidadezinha no interior que faça pães de queijo, onde eu possa encontrar um pouco mais de conforto do que aqui, no meio dessa gente desinteressante, onde tenho o azar de estar há quase uma década.
Um comentário:
cool ;)
more, more, more!
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